Será muito saudável que a incompreensível (pelo menos para mim) "esquerda" planetária que foi acampando pela paisagem nos últimos anos, com o bornal a abarrotar de "conceitos" tão distantes do pulsar do ser humano como a terra está do centro da galáxia, se vá adaptando à idéia de que o seu existir caminha inexoravelmente para o fim. Nenhum ser, por vagamente pensante que seja, consegue aguentar por muito mais tempo este trilho cavado por cripto-humanóides plastificados, a soldo, e que ninguém entende. Não é um progresso. É uma tentativa de imposição de uma forma distorcida de animalidade (uma espécie de anestesia estupidificante) que até a etologia de Lorenz e von Frisch teria dificuldade em explicar.
O Brasil foi apenas o último exemplo. Que, e por aqui me ficarei, já elegeu o presidente. Para enorme desespero de "esquerdistas", comentadores e analistas avulsos que saem de todos os buracos imagináveis, todos eles com a boa solução para o eterno problema da quadratura do círculo.
O que se passa por lá, fica por lá. É inútil dar-lhes mais importância do que aquela que, na realidade têm.
Interessa-me o quadro geral. E nele, o que vejo? Vejo todo um mundo a querer libertar-se das garras sufocantes de uma "esquerda" politicamente correcta, seja lá o que for que isso queira dizer. Farto de aplaudir banalidades existênciais promovidas até à náusea com o exclusivo intuito de esboroar uma vivência em comum, coisa já de si e sem outras colateralidades, nada fácil. Quase me faz ter saudades da velha esquerda musculada, mas franca no combate. Todo o mundo sabia ao que ia. Este fenómeno de rejeição óbvia começado nos Estados Unidos transportou-se, para já, para países tão insuspeitos como a Áustria, alguns nórdicos, o leste-europeu, a Itália e todos os que se seguirão, e não serão poucos. Por uma razão muito simples de apreender. O ser humano é ele próprio e a sua circunstância. Acontece que a circunstância está a cair em desgraça porque ninguém suporta circunstâncias criadas por terceiros, especialmente por aqueles a quem não foi pedida opinião. Os casos português e espanhol, são disso paradigmáticos. Acabaram a dar voz a quem, fôra a circunstância normal, estariam a procurar emprego, caso houvesse alguém disponível para o proporcionar. Quanto às "direitas", o melhor mesmo é nem sequer tentar percorrer essa estrada. O que aparece de "novo", carrega em si as caras de um passado recente que toda a gente quer esquecer, e já. Estão tão impregnados da sua própria empáfia que nem essa triste singeleza conseguem captar. O que há de velho, não passa disso mesmo. Já nada tem para trazer para cima do coreto. Entreteve-se apenas a envelhecer. Próprio de gerações a quem nada faltou. Eu incluído.
Onde estão os que vêm atrás de nós? Porque se o futuro que se apresenta a escrutínio é o que passa pelas jotinhas partidárias, estamos conversados.
Não haverá sequer futuro.
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
Parabéns tão públicos quanto possível.
10h30 da manhã, instalo-me com um dos livros de turno (o último Salman Rushdie, a resvalar bocejantemente para o medíocre) na esplanada das minhas leituras. Ainda vazia do horroroso turistame que se diverte a achar as vistas "beyond belief", enquanto lança guinchinhos tão incompreensíveis quanto incomodativos, para o éter. Pedido o café, mergulho de novo na história de Nero Golden. Não tinham passado 10 minutos e uma voz feminina aproxima-se da minha orelha e sussurra-me: cá está o senhor com uma das suas milhares de amantes! A voz soou-me familiar, confesso. Terei levado alguns segundos a virar os olhos para a origem daquela blasfémia. Visão que me fez rasgar um sorriso como há muito não acontecia. Era a P., uma simpaticíssima brasileira que trabalhou naquele lugar e que deixei de ver de há uma boa dezena de anos a esta parte. Fazia-se acompanhar pelo marido, cidadão francês de boa cêpa e catedrático no Instituto de Estudos Políticos de Estrasburgo. Convidados a juntarem-se-me, abriu hostilidades com uma frase que me soou a quase-acusação: finalmente, quis o destino que conhecesse o homem de quem a P. tanto falava e fala, desde que a conheço! Lancei um olhar meio confuso, sem alvo definido. As sonoras gargalhadas que soltaram, cruzavam-se com o meu sorriso, a pender desconfortavelmente para o amarelo. Aí entra a P. que, num repente, me remove da minha miséria e me esclarece. De tal forma o fez que conseguiu comover-me. A história conta-se em duas palavras. Há uma boa dúzia de anos, deu-me para reler a biografia de Salazar pela pena de Franco Nogueira. Claro que algumas daquelas gloriosas manhãs de leitura foram passadas naquela esplanada. Já lhe tinha percebido a curiosidade. Um belo dia, passada a vergonha, arrisca a abordagem. Gostava de conhecer a vida e a obra desse homem de quem tanto ouvi falar no Brasil, e de quem continuo a ouvir falar...
Pressenti o que se iria seguir!
Para mim, emprestar livros é assim como alguém propor-se arrancar-me as unhas sem anestesia. Mas aquele sorriso desarmou-me. E resolvi arriscar, também. Ao longo de um período de 4 ou 5 meses, fui-lhe passando os seis volumes. Nunca falhou uma devolução. Quando me entrega o último tomo, tem um desabafo que nunca mais esqueci. Tomara o Brasil ter tido, ao longo da sua história, um homem como este. Eu não estaria aqui e o meu país não estaria onde está. Para mim, ficou feita a resenha de um período político em Portugal. Em busca de melhor vida, as curvas da estrada levaram-na a Estrasburgo. Dois anos depois tenta uma primeira vez entrar no Instituto referido acima, coisa que, reconhecidamente, não é fácil. Nem mesmo para nativos. Entrou à segunda tentativa. O terceiro ano do curso foi feito em Georgetown (onde aturou umas aulas ministradas por Durão Barroso) a expensas da própria universidade. Mais dois anos e obteve o Master em Sciences Po. Resultado: foi onde conheceu o marido (seu professor) e onde prepara uma tese de doutoramento sobre...adivinhem. Já estou a salivar pela leitura. Conta defendê-la em 2020.
Percebem agora o meu comover-me? Um pequeno risco da minha parte que desencadeou um caminhar glorioso para alguém.
Momentos que valem por uma vida. Há sempre uma luz no meio da escuridão geral.
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