"...há só duas maneiras de ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer."
Álvaro de Campos, in Aviso por causa da moral e outro textos.
Não sei calar-me, porque já não tenho idade para isso, tal como não sei se Pessoa, lui-même, estaria de acordo. Mas também não é importante. Para "dilacerações internas", bastam as minhas.
Mas, se calhar, até estou - de acordo, claro!
Tenho para mim que a contradição é uma forma superior de estar na vida. Ou de a olhar. A maneira menos cinzenta de o fazer. A forma que temos para nos demonstrar que continuamos in progress. E que insistimos na perturbação de tudo e todos os que nos rodeiam. E, claro, a mais veementemente zurzida! O que, por si só, atesta da sua real eficácia.
Porque nada pára. Aquilo que hoje temos por certo, amanhã já está errado. Aquilo que, hoje, damos por garantidamente errado, amanhã surge-nos na forma mais acertada que é possível imaginar. A realidade não existe. Formamo-la e formulamo-la a cada vez que a olhamos.
Antes de olharmos, o vazio é absoluto. Crónicamente absoluto.
Depois de olhar, preenche-se de tudo. Até daquilo que não preenche nada!
O que é que me deu hoje, perguntarão vocelências!
Apenas não quero ter razão...calando-me!
Afinal, Pessoa, deveria estar de acordo com Álvaro de Campos.
Presumivelmente.
Ou não?
