domingo, 13 de maio de 2012

O sagrado e o profano.

Duas vénias iniciais. A primeira para Mircea Eliade a quem roubei o título que encima este escrevinhanço. A segunda, dirigida a William Blake, a quem usurpei a imagem. Cento e muitos anos os separam. O louco (Blake), como era conhecido pelos seus contemporâneos e o homem que a esquerda bem pensante - a inteligente, a que vale a pena ouvir -  execra de morte. Não me refiro, como é óbvio, à actual que, muito provavelmente, nunca terá ouvido falar dele. Homem a quem Salazar fascinava e que passou episódicamente por Lisboa, durante a II Guerra, na qualidade de adido cultural da embaixada da Roménia.
Mas isso não interessa nada. Interessa-me apenas o filósofo das religiões.
Vem este intróito a propósito de dois eventos simultâneos. Fátima e o Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada. E começo com uma declaração de interesses. A Igreja, enquanto entidade bi-milenar, nunca me interessou. Deliberadamente. Desconfio, por natureza, de tudo o que é "gerido" por seres humanos. Só os seres humanos, eles mesmos, me interessam. 
Escapa-se-me, por entre os dedos, a real dimensão do conceito de Fé. Fé no seu profundo e inexplicável(?) sentido de um estado de paz inquieta. Nunca a encontrei, embora continue a tentar. Eliade, foi apenas um dos pensadores a quem recorri, em algum momento do meu percurso na busca de um qualquer interruptor que me espalhasse luz pelo caminho. Também não foi capaz. Ou fui eu que não estive à altura.
Há pouco, olhei uma reportagem televisiva sobre a fantástica - e, para mim, invejavelmente saudável - demonstração de fé que muitos dos meus  confrades humanos são capazes de projectar. Algo de misteriosamente belo os proteje, nem que seja por alguns momentos, da dura realidade que os (nos) rodeia. Os torna quase místicos. Quase intangíveis. Etéreos, mesmo.
E dou comigo a pensar, porque não serei eu capaz de ascender a esse Panteão de beleza? E, à mesma velocidade a que penso, também concluo: porque não mereces. Porque fazes tudo para não o conseguir. Porque te recusas a ser humilde na tua imensa pequenez. Porque não és sagrado nem sequer profano.
Porque olhas...mas não vês! 
Se calhar já é um princípio.